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quinta-feira, 23 de junho de 2011

O legado de meu Pai(Livro-Vem!...Cenyra Pinto)

  Certo homem, pai de uma única filha, sentindo que chegava o seu derradeiro momento, chamou a filha e disse-lhe: Vou morrer e nada tenho para legar-te. Terás que enfrentar o mundo e ganhar a tua própria vida. Como fazê-lo? Não és bonita e nunca o serás. Não tens nome nem dinheiro. Mas vou deixar-te uma herança: três regras simples. Se as seguires, o mundo será teu.
  Primeira regra: nunca temas o julgamento do mundo. A criatura o teme mais do que a qualquer outra coisa. Generais poderosos, á cabeça de grandes exércitos e capazes de enfrentar os mais brutais inimigos aterrorizam-se ao pensarem no que os outros dirão a seu respeito, e que possa desgostá-los.
  A segunda regra-continuou o homem- é ainda mais importante.
Não coleciones objetos inanimados. Ser-te-á impossível fazê-lo sem ficares dominada por eles. Concluí, assim, que quanto mais possuímos, mais somos possuídos; portanto, nada possuí além do absolutamente essencial. Vivo livre como o próprio ar, que é uma coisa maravilhosa.
  E a terceira regra que me veio a calhar, disse ele, é esta: Ri sempre de ti mesma primeiro. Cada um de nós tem algo de ridículo mas gosta de rir dos outros. Ri primeiro de ti mesma e o riso dos outros resvalará sobre ti como se estivesse protegida por uma armadura de ouro.


   Lendo essa crônica, tirei a lição nela contida e resolvi transcrevê-la, acrescentando que o legado desse pai, na hora da morte, á sua filha, ao que tudo indica, era adulta, talvez não pudesse mais alcançar o seu objetivo.
  Essa jovem, já com o caráter formado, ignorante do mundo, com tudo contra si, sem beleza, sem nome, sem dinheiro por certo iria encontrar dificuldade em usar o legado de última hora.
  Lições que encerrem sentido dessa natureza devem ser dadas aos filhos desde que tenham entendimento para compreender. Devem ser repetidas nas ocasiões apropriadas com o objetivo de preparar a criança para enfrentar o mundo e viver dignamente, seja qual for a sua condição social, intelectual ou física.
  Entendemos, na primeira regra, que o maior mal da humanidade é o medo do que possam pensar e dizer a nosso respeito.
  Não temos liberdade de ação. Somos escravos de opiniões alheias. Não temos coragem de ser nós mesmos. Sempre desejamos parecer aos outros que estamos na faixa do padrão aceito por todos.
O padrão que não desaponta. Vivemos em conflito, como se fossemos algo novo que precisa expressar-se dentro da parte inútil da tradição, ressalvados os valores permanentes que á boa tradição conduz.
  A segunda regra nos ensina que quanto maiores os bens materiais que possuímos, maior espaço mental ocuparão em nossa zona íntima.
Teremos que pensar neles, administrá-los material e mentalmente. Se não tivermos formação espiritual, terminaremos escravos. Sentir-nos-emos inclinados a multiplicar materialidades. Confundiremos o meio com o fim.
  A terceira regra mostra-nos que todos nós temos algo de ridículo e que esse ridículo mais se intensifica quando ridicularizamos os outros.
  Quando formos capazes de nos ver tal qual somos, certamente silenciaremos ante as expressões particulares que os outros são.
  Rir dos outros demonstra, além de falta de educação, um profundo desrespeito pela pessoa humana, uma falta de caridade, princípalmente se incutimos nossa ironia nos que estão a nosso lado, que, para nos serem agradáveis, provam ser ridículos também, fazendo coro conosco.
  Esse legado, que foi transmitido por um pai a dua filha única no momento do seu desenlace, deveria ser legado por todos os pais tão logo seus filhos entrassem no mundo. Assim, muitos dissabores seriam evitados. (Crônica de Elza Maxwell)

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